Solenidade de Colação de Grau da Turma de História - 2008.1

Fotos (parte 1)

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Fotos (parte 2)

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Postado por: Helder Macedo às 14h32
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DE INCERTEZA

Hoje senti aquela vontade louca e insana de escrever, de debuxar pequenitas linhas neste papel-infinito que repousa por sobre minha frente, com a esperança de que eu possa, a partir disso, esquecer um pouco das preocupações que rondam minha mente, dando-me chance, assim, de pensar e refletir um pouco sobre minha condição. Não que a minha escrita possa moldar o que penso ou o que sou, mas, creio que, ao escrever, eu possa estar expurgando males primitivos que parecem assomar-se no meu corpo e alma, ou, ainda, extirpar todos os venenos maliciosos que não me deixam pensar um pouco mais no meu eu. Coisa-meio-que-de-louco, porque não sei o que teria me levado a ficar tantos dias sem escrever, sem voltar aqui neste espaço heterotópico, que já pulsa com tantos delírios e devaneios meus. Espero poder me entender melhor, daqui pra frente, pois sempre viajo em meus pensamentos e acabo chegando no sítio do Lorde Caos, sem que eu nunca tenha me avizinhado do rancho da Ordem – parece que eu nunca chegarei... Mas, o fato é que Natal continua melancólica como sempre, a chuva caindo torrencial por entre os espigões de concreto e cimento, marcando e demarcando o espaço que teima em resistir, mas, que soçobra frente à força pluvial, gerando lagoas, lagos, ingás-urbanos, inundações, buracos, vias estripadas pelos grossos pingos... Tudo é caos, e nesse caos eu me deito e deleito, com a imensidão de desejos e de ânsias que esse frio-melancólico-gelado me impõe, que me faz lembrar e relembrar (frios sempre são bons, ainda que gélidos, mas, lembram corpos adentrando em outros corpos ou somente subsistindo um em função do outro, respirando o mesmo ar, gozando do/no mesmo ambiente). A verdade é que, malgrado minha constante dor nas costas e ainda os enjôos próprios que a urbanidade de uma capital me traz, consigo divisar, dentre tantos indivíduos que a cidade me oferece, alguns em potencial para tornarem-se experimentos do sentimento fraternal que teimo em, ainda, por meio das redes de hipertexto, construir. Amizades por vezes frívolas, frígidas, sem-sal, como as que almejam apenas o sexo, sem terem em mente que o contato entre dois corpos não pressupõe, via de regra, que ambos possam quebrar os princípios científicos que pregam a máxima (tão contestada) de que dois corpos não podem ocupar o mesmo lugar no espaço (afinal de contas, que dizer de tantos remixes que existem por aí afora, aos milhões, bilhões, trilhões, desde que o homem descobriu no seu semelhante uma oportunidade de realizar prazerosos intercursos). As experiências com outros homens às vezes, por meio dos hipertextos, me estressam, levam-me à loucuras desenfreadas, a cometer atos vis e a falar impropérios, dos quais às vezes nem quero ter a dignidade de lembrar (mesmo quando tão bons eram), e de onde, por diversos momentos, chego a estados de extrema penúria e desarranjo mental. Ora pois, teria eu ainda condições de amar? Sinto-me tão fragilizado, exposto a viroses e infecções das mais diversas naturezas, neste caos urbano que é a Cidade do Natal, que soa para mim estranho a possibilidade de amar. Mas, creio ainda existir luzes no fim do túnel, já que eu sempre arranjo a desculpa de ter alguma coisa ou alguém para acreditar (que seria do homem sem acreditar em nada?). Espero ansioso e ardentemente que isso se concretize.

 

MFE in 08 ago 2008



Postado por: Helder Macedo às 16h33
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FDS

 

Um fim de semana em Natal, a princípio uma praia (linha desfeita), um almoço com uma amiga e colega de trabalho, uma ida ao cinema, curtição de reload de filme que assisti quando criancinha, na televisão. Todos os ingredientes de um enfastiado dia, que poderia ter sido tão melhor se eu não tivesse que arcar com preocupações mil. Sinto muita, mas, muita saudade do tempo que era menino, que dormia sem me preocupar com o outro dia, com o que fazer. E hoje, decorridos tantos anos (já beiro os trinta), parece que não consigo mais desanuviar toda essa situação... Situação que eu mesmo plantei, quem manda ir atrás de ler muito, escrever muito, estudar demais...! Oras, estou meio que apreensivo, vim no coletivo olhando pra toda a paisagem de dunas e verdes ao meu lado direito, lembrando de quando era pequeno e Natal parecia NY, nas épocas em que eu só batia-e-voltava, em tempo de veraneio, e coisa de um, no máximo dois dias. Dormir em Natal, menino, era sonho de consumo, e só teve uma vez quando era pequeno, com minha vó, em Búzios (não tinha nem casa direito, não como hoje, superpovoado). Hoje, moro em Natal (pelo menos na semana) e, por mero descaso, não conheço direito essa cidade tão maravilhosa e perigosa. Espero que um dia o acaso possa me levar a conhecer, em profunidade, os mares desta cidade, as pessoas que nela habitam, pois vivo em mundos transitórios no momento, partilhando de encruzilhadas múltiplas, demonstrando o quando múltiplo sou eu também, conquanto não seja onisciente como dizem que o Criador é. Alucinado, desesperado por viver tranqüilo, acho que é isso que quero, no fim das contas, como se Iemanjá pudesse me dar essa calmaria (eu ia hoje ver ela e não fui, droga) e o beneplácito de dormir ávido por novas paixões. Passagem para outros mares, quero mesmo. Gostaria muito de poder viajar no meu inconsciente, pra notar tudo o que fico interpondo interditos em minhas caminhadas de pedestre pelas cidades imaginárias que monto, pelos lugares extradimensionais por onde passeio, pelas furnas onde sento os meus assentos, minhas pinturas, meus vestígios que um dia se tornarão rupestres. Diacho de fim de semana borocochô esse meu, sem ninguém pra compartilhar nada, meus pobres e melancólicos momentos, agruras e desafios pertinentes e impertinentes! Fiz de todos os meus desejos um sol, às vezes até acho que foi desperdício reduzir a pó-de-madeira outros de meus anseios e ardentes pedidos, mas, vejo, a cada dia, que a vida é feita de escolhas. Benditas ou malditas, elas nos ajudam a entrar em transe ou então fica em sintonia com os Lordes do Caos (ou da Ordem, se é que esses existem!). Sabe, imagino a vida como um grande caldeirão cheio de lamúrias, onde todos vivem se bendizendo, ou se maldizendo, mas, no fim das contas, todos querem algo, nem que seja caluniar, ou reinventar o já inventado. Fantasias de um sexo que não se realizou, de nexos que foram partidos (sabe lá quando poderei uni-los...), ou de homens que foram separados por forças obscuras, ininteligíveis, inexatas, oblíquas que nem minha visão quando vou à praia, por debaixo das lentes de meus óculos espelhados. Não sinto mais cheiros como antigamente, não me impressiono ao sentir bons odores de um homem, o que será que está acontecendo? Estarei desistindo da procura pela arca perdida da felicidade ao lado de alguém com bons fluidos e odores, que possa me reconfortar e olhar pra mim sem ter olhos de soslaio? Dá é uma vontade louca de fechar-me de cadeado, jogando a chave por fora, e pondo debaixo de um capacho. Necessidade de me fechar pra balanço, sei lá, alguma coisa do tipo. Espero que, quando eu me banhar com água salgada, possa refletir sobre isso. Desejo intensamente.

 

MFE in 12 jul 2008



Postado por: Helder Macedo às 19h27
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Sim ou não?

Estou a ponto de cometer uma loucura, procurando meios para fugir de mim e da realidade que me cerca, pois sempre que procuro o caminho mais certo as coisas não acontecem da forma que penso ou que quero (serei muito egoísta por isso?) Uma sensação como que de percorrer um jardim secreto em busca do tesouro entranhado é a que sinto, aquela mesma sensação que os desenterradores de botija devem sentir, como se fossem os últimos da face da terra a quem algum espírito confiasse jóias, ouro e prata... Lembro-me das tantas e tantas outras vezes em que tentei ser feliz, às custas de minhas memórias e dos meus devaneios, e que em todas elas sempre desabei de edifícios mais ou menos construídos, erguidos diante de tronos múltiplos e por sobre céus já escondidos/obscuros/imperfeitos. Na realidade, o que preciso mesmo eu não sei, até me pergunto o porquê de estar buscando ser feliz, se estou passando uma chuva nessa Noiva do Sol (pelo menos, acho) ou então em caráter transitório me encontro, vivendo em encruzilhadas tantas que chega me dá medo só de pensar, esperando que um dia isso possa tranqüilizar minha sempre cheia mente, de trabalhos, de paixões, de sexo, de comida, de música. Nesses dias tão frios e melancólicos eu me sinto frígido, o mais frio dos homens, coração-de-gelo (e corpo também), porque, além de toda a tristeza que as tamanhas chuvas me proporcionam, bottons teimam em aflorar ao sul do meu corpo, dando-me ordens interditas para que eu pare, que eu pense e repense o meu lugar no sexo, forçando-me (como se eu não gostasse) de experimentar outros lados de uma mesma moeda, sair da passividade em que, por muito tempo (inda bem que já acabou) me dominou, como se eu fosse sempre ser o garoto subserviente, pronto a realizar desejos e a oferecer prazer para um bando de canalhas insensíveis que somente queriam mesmo aproveitar-se dos efêmeros momentos de caçadas regadas ao som da noite mais densa e escura, onde não se sentia mais que a minha presença. Bottons imprevisíveis, ironias do destino, mal de família que aflora agora em meu seio, me impondo todos esses interditos (não quero morrer me vazando, como diria o meu avô, que também era acometido desses bottons), me pedindo pra ficar off por alguns tempos (inda bem que não tenho problema em ficar off por tanto tempo, senão estaria subindo pelas paredes).  Melodias muitas, nesses dias, vêm na minha cabeça e ficam impondo idéias loucas, me alucinando mais do que eu sou, provando pra mim mesmo que é preciso mudar, deixar de ser o leve e indelével garoto para tornar-me, efetivamente, alguém que deixe sua marca nos confins... será que eu vou ter cacife pra isso, pai? será que irei padecer dos mesmos medos e das mesmas agruras que acometeram o meu tio-trisavô, o Azevêdo Dantas? será que encontrarei amparo nas pessoas em quem buscar, ou terei que ficar garimpando almas boas nesse mundo tão dessacralizado da verdade? Oras, nem mesmo para bolificar tenho vontade em sã consciência, sou esquecido de mim mesmo, injúria cometida contra o ego da cachorra-no-cio que enfeitava um quadro na casa de um amigo meu de outrora... eu nem sei mais o que pensar de mim mesmo, sou um cometa de alucinações pervertidas, ou então estarei me passando por uma ‘lolita’ disfarçada de ‘marilyn’? estarei, ainda, em tempo de correr atrás de um amor sincero, entregando-me totalmente aos caprichos da ‘fidelidade’ (ainda quero crer que ela não exista, e que seja relativa)? bom, os vetos me dizem pra ir parando nesse temporal louco que é minha vida, pedem que eu aporte no porto mais próximo, no mais seguro, eu só não sei se eu devo mesmo aportar, ainda estou indeciso, confuso, com a cabeça chafurdada. Espero confiante que os deuses possam clarer minha pobre mente (na impossibilidade de entrar em contato com a terra-mãe, no serrote onde o galo cantou no tempo do mito). Espero muito, quero muito estar ao lado do anjo de ébano, mas, ainda necessito de uma resposta de mim mesmo: sim ou não?

 

MFE in 08 jul 2008



Postado por: Helder Macedo às 21h56
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Ébanus

Tenho procurado não escrever, não sei o porquê disso, porque esse frio tedioso de Natal nesses tempos só me traz inspirações boas e recordações outras, ditas e não-ditas, a lembrar-me constantemente do passado, de coisas que não fiz e das que fiz com gosto de gás.  Até parece que não venho mais aqui por outras razões, será mesmo que ainda milito nessa senda, vôtz, penso que não. É um misto de preguiça e de anti-tédio mesmo que reina em mim, conquanto esteja atarefadíssimo nesses mundos todos. Estou novamente a pestanejar alguém, piscando pra ele com os olhos, o beto, a mala, na esperança de que possa baixar o meu facho e sorrir sem medo, esperar um abraço e um beijo sem precisar arvorar-se a caçadas na rede e na virtus. Porque, nesses dias de fim de mundo, onde o pensamento escatológico de muitos sossobra por aí afora, penso que ainda existe amor nesse mundo e que, por mais que ele esteja ensimesmado, homiziado, escondido nas brenhas de alguma grota de algum país de algum continente, ainda acho, é possível achar ele. É possível pensar que um sentimento pode percorrer duas pessoas e gerar transposição de carnes, carne entrando na carne, alma entrando na alma, gozo, prazer e dádiva. Bem, é o que eu acho, na altura dos meus quase trinta anos, após ter vivido experiências enes que tanto teimam em repetir-se na minha mente, na minha mão e na minha cotidianidade, como flashes do passado sempre prontos a aparecer, a emergir diante de minha vida nesta capital sedenta de sangue e de sexo.  Eu acho que, por mais que seja uma ânsia fluida, quero muito acreditar no querer bem e na vazão de pensamento, de loucura, de tesão mesmo, que pode existir entre duas pessoas. Porque não nascemos para ficar sós, já dizia, otimista, um amigo meu de outrora, pensativo em me poder ter como namorado (mas era meu amigo...). E é um momento sempre convidativo, andando em coletos ao som desses corpos de pedra-concreto, lembrar de quanto já amei por aí afora. Ah... amores vãos, amores platônicos, uvas passas regadas ao vento que nunca quer calar. Quero mesmo um amor de ébano pra mim, que me trate e me dê o trato que mereço... quero um anjo de ébano a cantar sinfonias para mim, a me torturar com sua melanina cheirando a paixão e com sua ardência/cadência/latência...

 

MFE in 03 jul 2008



Postado por: Helder Macedo às 21h02
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DÚVIDA

 

Hoje novamente estive nas alturas do monte onde um galo cantou em eras imemoriais, em busca de novas energias, procurando explicação para coisas estranhas que acontecem em minha vida. Acontecimentos vãos, por vezes pequeninos, mas, que me inspiram a realização de atos não pensados e até mesmo interditos (tenho medo deles). Fico pensando em estar mais perto dos astros, para captar mais intimamente a imagem refratada das estrelas, que chega até nós com milhares de anos-luz de atraso. Parece que de fato minha alma encontra-se numa galáxia perdida, distante, mas, muito distante de mim, porque cada vez que subo numa altura grande, tanto quanto o ouvido dói e veda, meu coração alça-se a outros compartimentos desta maravilha fenomenal que é o universo. Tento explorar outras instâncias, viajar com os cometas, acompanhar as cadentes estrelas, reconhecer os planetas no esfumaçado espaço que impera sobre minha cabeça, mas, o que vejo é apenas, dentro de mim, um misto de desilusões, preocupações e desespero. Fico mesmo a matutar se sou, efetivamente, humano... Sei lá se não sou uma experiência alienígena mal-fadada, que foi abandonada por não ter dado certo, sei lá. Hoje, naquelas alturas, sozinho, gozando da brisa fria e suave e dos ventos sibilantes da solidão, percebi como o tempo está correndo a uma velocidade inimaginável. Menos espero, chego na Noiva do Sol. Apercebo-me, estou na das Dantas Carnaúba. Olho pra mim, estou pronto pra viajar, ou arrumando a mala. Sensação de estranhamento, nunca o tempo tinha corrido tanto, parece mesmo que tem medo de mim, ou se assombra porque quero fazer mil coisas e não consigo nem a metade, talvez seja isso, talvez seja um inconsciente pesar do tempo em relação a mim, porque eu sou arauto de Clio (afinal de contas) e vivo perseguindo a diacronia (não que eu não goste da sincronia). Vontade de fechar meus olhos e abrir em uma serra cheia de cachoeiras e grotas profundas, lastradas de letreiros e com índios ainda a habitar os recônditos. Vontade mesmo de poder saber quem eu sou, que deverei fazer daqui pra frente. Porque até mesmo um ente querido, que imaginava que pudesse compartilhar momentos bons comigo e gozar ao meu lado, escapou de minhas mãos como um sabonete molhado, caiu por terra, e agarrou-se a outro... Será mesmo que tenho uma maldição entranhada, a de não conseguir segurar ninguém (não pensaria, nunca, que tinha tanta... ainda acho que não tenho) por muito tempo, a de parecer volátil (sem o ser) diante de situações vividas e não-vividas? Recolho-me agora, para arrumar minhas bagagens, pois viajarei de madrugada. Espero que Hypnos abençoe meu sono, me dê a ciência de discernir o que devo fazer daqui pra frente: assumir-me, definitivamente, como um coração-de-pedra? Ou abrir, definitivamente, as portas do meu coração, quebrando o seu gelo?

 

MFE in 22 jun 2008

 



Postado por: Helder Macedo às 23h27
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TEMPOS E TEMPOS

Há tempos que eu não vinha por aqui, me sentia transitório, cheio de loucuras para fazer numa cidade tão louca quanto a Noiva do Sol, que, por horas e vezes, me deixa atarantado, sem saber pr’onde rumar, como se eu tivesse uma bússola desarranjada por cima de minha pobre cabeça fria. Ahh, como queria de novo aqueles tempos de não viver com preocupação! Às vezes me dá essa nostalgia simbólica e misteriosa, uma vontade enlouquecida de entrar numa máquina do tempo e retornar para o tempo do mito, onde o tempo não é tempo, onde a sincronia vence a diacronia, onde não existe nem Cronos e nem Réia, nem Zeus e nem os arautos do tempo, onde o tempo escorre pela ampulheta e não se mede mais, rola solto pelo espaço. Uma sensação quase que de como se eu quisesse não aceitar essa realidade insuportável em que vivo, com todas as suas agruras e descensos , ou como se eu quisesse burlar a ordem estabelecida, instituir meu próprio mundo, estatuir minhas próprias vontades, ditadas em testamentos não-ditos, mas, gravados em micaxisto com um percutor feito de arenito silicificado, pode? É nesses momentos, com dores consumindo minha coluna e leves fagulhas de ardência a acometer meu segundo botton – pequenino – que todas essas neuroses povoam minha cabeça, levando-me a outros lugares, fazendo viagens por onde não deveria estar, ou pelo menos pensar – porque, malgrado tudo, eu ainda penso. Penso que pode existir menos maldade no mundo, penso que a corrupção um dia será mais leve (nunca acabará), penso que poderei um dia ser feliz ao lado de alguém (essa quimera ainda não saiu da minha cabeça, pelo menos, não quero tirá-la, mesmo com tantos insucessos no amor), penso que um dia poderei estudar filosofia – e, assim, entender como posso me entender melhor e entender o outro. Penso também que cada um, ao descer na esfera terrestre pelo ventre materno, tem uma missão – eu, efetivamente, ainda não sei qual a minha direito, só sei que amo lecionar, amo pesquisar, amo estar perto de livros, ler, escrever, compartilhar meu parco conhecimento com outrem... isso eu gosto mesmo, quero nem saber, danem-se os que não gostam! É coisa minha mesmo, de minha índole. Por isso que acho que sou tão chato, só vivo pensando nessas coisas, esqueço até de mim, deixo que outros falem pela minha pessoa (quando eu poderia falar tanto do que já fiz...) – e aí eu me envergonho todo, fico cor-de-rosa (ou de jambo, segundo alguns), tento me esconder por baixo das pernas de uma mesa, em um frenesi regado a gelo nas veias. Em verdade, nesses dias tenho estado muito pensativo, sei lá como prosseguir daqui prá frente, nessa encruzilhada em que me encontro, sendo desconhecido de mim (embora haja apontamentos para dadas e certas direções) o meu paradeiro real, onde irei instalar o meu pilar e secundar a minha existência, onde poderei de fato estar amarrado a alguém de direito e de fato (será possível que não conseguirei?), onde a vida poderá sorrir um pouquinho prá mim, um pouco, nem que seja, que me deixe sorridente também, onde eu possa abrir a janela de meu quarto, de manhã, e dizer (sem o apelo a uma piada homofóbica terrível que circula de boca-em-boca) “bom dia sol”. Chorei muito também nesses dias últimos, nem sei porque, já que sou assumidamente um coração-de-pedra, com coração tão frio quanto a muralha de gelo eterno da Sibéria. Mas, por certo que me bateu uma emoção avassaladora, ou então, por certo que me veio uma alegria momentânea, um aviso, um prenúncio de uma dádiva que ainda está por vir. Só pode ser, de outra coisa não seria originário não. Minha cabeça roda, tanto quanto eu enrolo meus cabelos castanhos e brancos quando a preocupação me abate, pois vivo pensando que o mundo um dia irá acabar (certamente, por certo que sim!) e eu não terei executado tudo o que eu penso. Oxalá assim eu possa terminar esses afazeres! É tanta coisa para fazer, projetos, artigos, textos, uma luta interminável que trago com minhas idéias obscurecidas pelo tempo e adormecidas por causa de tantos outros trabalhos que me chegam. Mas, quero continuar vivendo e ter forças para dizer “obrigado” àqueles que me ajudam a sobreviver, ou que, com seus exemplos de vida, e seu carinho por mim, fazem com que eu me sinta, minimamente, querido dentre a multidão. Deuses e deuses, por favor, olhem para mim um instante apenas...

MFE in 22 jun 2008


Postado por: Helder Macedo às 01h50
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QUERO UM DRAGÃO!

Hoje, mais do que nunca, me senti sozinho. Uma vontade louca de sair gritando aos quatro ventos que estava carente, que precisava de um corpo junto ao meu, ainda que fosse apenas para partilhar calor e desejo. Vontade louca, que bate e rebate em meu ser, impelindo-me a fazer coisas meio loucas, pois não podia ser diferente. Num instante, finalizo minhas tarefas no trabalho. No outro, por recusa de amigos, dirijo-me com ânsia para o cinema, na tentativa de que aquela gigantesca tela me leve a outros mundos, extirpe de mim qualquer referência a este globo terrestre, me transporte para outra dimensão, afinal são tantos os afazeres e tantas atividades que nem sei mesmo por onde começar, pois já é quase meia-noite. Pensei na encruzilhada que está sendo minha vida, meus universos paralelos, distantes e díspares, construídos e a ponto de serem descontruídos, um desejo candente de amar ou de pelo menos assentar meu prumo em alguma construção por aí afora, com a meta maior de poder comungar de um outro ser. Acho que pensei até mais do que tudo isso, mas, a coca-cola e a pipoca média fizeram que idéias outras afluírem até outros estratos de minha mente, só pode ser... Sei que estou confuso, com dores nas costas, uma típica indecisão de sagitariano e o pensamento longe, pensando no outro, querendo seu corpo junto ao meu e sobretudo escutar sua fala susurrando no meu ouvido, pois nem direito a isso tive. Queria mesmo um dragão perto de mim, pra me queimar todinho, me deixar todo cheio de cinza, fedendo a fuligem... queria mesmo o fogo desse dragão por perto de mim, pra me reanimar (especialmente em horas como essa, de desalento, de desânimo) e me fazer sentir-se querido. Nem que fosse por um dragão, mas, eu queria, porque eu acho que um dragão perto da gente deve fazer tão bem! Deve até fazer com que nossa cútis, ao alvorecer do dia, fique mais limpa e com menos saliências rugosas emergindo do tecido cutâneo. Assim dizem aqueles que já conviveram com dragões em suas casas... Eu bem que queria ter um, pra toda vida que eu me sentisse assim, decaído e decrépito, ele vir com o fogo dele e me botar pra cima, me fazer criar alma nova com pouca coisa. Mas, pra tudo tem sua hora, já dizia um livro do Pentateuco. Embora eu não credite a forças divinas a autoria deste livro, acho que já é um bom começo acreditar que os dragões existem e que um dia chegará a hora que poderei ter um perto de mim.

 

MFE in 11 jun 2008



Postado por: Helder Macedo às 23h27
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Carruagens de fogo

 

Yo nunca mais tinha vindo até aqui, arrancado algo de minhas entranhas e depositado nesse papel que não é papel, nesse suporte que não pode ser tocado nem avaliado. Há tempos, há tempos que não vinha mais chorar diante desta máquina fugidia e horrenda, que em momentos outros me acalenta com seus prazeres mortais e efêmeros. Saudades... saudades de meu tempo de estabilidade (ainda que pouca), de poder-estar-comigo sem a preocupação do dia de amanhã acordar e não ver mais o sol nascer do mesmo jeito, tendo que procurar uma ocupação outra ou ainda ter que se virar e se coçar ao bel-prazer-dos-transeuntes. Saudades... saudades do meu tempo em que eu acordava sem preocupação (esse tempo nunca mais voltará, tenho que me conformar com isso, pois sou um misto de bólido flamejante que anuncia caminhos de perversão e de luxúria), com a cabeça só pensando mesmo em mim (e me pergunto, mentalmente, se penso nos outros ou em algo que possa interessar a outrem). Ao som do músico grego que tanto gosto fico a imaginar coisas e mais coisas, quando minha cabeça se derrete a ponto de escorrer como a parafina de cima do monte que hoje visitei, para bendigar a das Vitórias virgem-mãe-rainha-guerreira, pois parece que novamente estarei a mudar... metamorfose... camaleão... casca antiga jogada fora com intuito de buscar uma nova na caverna perdida... Sensação que tenho quando um pequenito prenúncio vem jogar sonhos e mais sonhos em mi pobre cabeça. Castelos no ar, a viagem de volta da Noiva do Sol, na sexta última, foi toda assim, tentando planejar seus alicerces (não sou arquiteto, mas, me permito sonhar, pois sou mortal), evocar antigos espíritos para me ajudarem a tecer sórdidos fios de um caminho que anseio trilhar, vagando por mares que dantes já naveguei, mas, agora, em movimento que se conforma como de vero (se as forças deste mundo e dos outros, sobrenaturais, assim o quiserem). Castelos no ar, sonhos, quimeras, viagem que em sua completude me levou a outras dimensões, sonhando ser um dia de fato quem sempre quis, sonhando um dia poder estar naquele lugar reservado aos que amam e alimentam o sonho de partilhar o conhecimento. Carruagens de fogo, parece que estoy a andar naquela bicicleta veloz, com o ator (que nem do nome lembro, pobre memória), ritmada ao som candente do grego músico, correndo sempre, parando nunca, o sol a pino, atrás de mim, a vontade de querer bem e de ser correspondido. Será mesmo que todos os dias ainda poderei pensar nisso? Ou estará reservada a tarefa de argüir mortais e imortais somente para as ninfas e as musas, como se fosse uma quimera, ainda, querer buscar humanidade onde falta, onde reina a mesquinhez, onde as crises subtraem estágios de loucura momentânea.  Pareço um pobre palhaço triste, num picadeiro solitário, sem pessoas para fazer rir... estoy muy carente de uma tensão e da emoção de compartilhar, de comungar, de ser um corpo único e ao mesmo tempo coletivo... Quero me travestir por completo, vestir minha(s) máscara(s), alegrar pessoas e motivar outras a vestir a camisa-de-corpo-e-alma. Sentir energias duradouras, escapulir de situações indesejadas, fugir das mazelas, esquecer seqüelas (sou assumidamente seqüelado, acho). Não sei o que será de mim daqui prá frente, mas, creio que tenho que deixar meu umbigo enterrado mesmo no-pé-da-porteira e parar de andar com ele no bisaco simbólico que é minha mochila de costas. Desejo terras novas, preciso novos ares, necessito instalar meus pilares por aí afora, desejar alguém com candência e esperar um beijo ao dormir... Enquanto isso não acontece, vou vivendo e vou querendo, e vou construindo meus castelos-no-ar-do-sertão-e-do-litoral, na espera de que os deuses sorriam para mim.

 

MFE in 07 jun 2008

 



Postado por: Helder Macedo às 22h14
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CONVALESCENÇA

 

Estou um trapo. Nunca imaginei que chegasse a esse ponto, queria muito estar escutando, a essas horas, o sibilar dos colibris no cimo do Monte, mas, a realidade não permite que isso ocorra. Estou um trapo. Ao passo que escrevo – a necessidade fala mais alto, o ardor e a necessidade pela escrita... – sinto dentro de mim espasmos de angústia, de desespero, de irracionalidade: meus anticorpos querem, a todo custo, vencer esses germes/bactérias/vírus ou sei lá o quê quem teimam em persistir dentro do meu organismo, causando-me todas essas lezões e esse mau-humor inveterado. De fato, não agüento nem tossir: a tosse reverbera em todo o meu peito, dolorido, inflamado, cheio de catarro preso; quero entrar em outra dimensão, experimentar os Elysium, gozar do sono eterno de Hypnos, oh como eu quero. Anseio e espero poder chegar ao meu oitavo sentido, para poder pular no poço do Castelo de Hades e chegar ao Submundo, sem que a morte me abata e me leve para perto dela. Quero estar no inferno! Eu sei que lá, no Cocytos, eu poderia me deleitar no inferno gelado sem estar preocupado com essa garganta inflamada, com a dor que percorre todas as juntas do meu corpo, com o estado de latejamento em que se encontra a minha cabeça e, ainda mais, com um botton desenvolvido ao sul do corpo (se bem que este, com tantas enfermidades, não emerge enquanto dor a me consumir, ou uma ardência que seja). Não consigo nem receber vento, ele me dói até na alma, entra pelas minhas narinas, ecoa dentro do meu sistema respiratório, faz-me arrepiar por nada (estou com febre). Vento maldito!  Só mesmo os líricos de Sarah e de outras divas para me tirarem dessa ignomínia em que me encontro. Meus pés sobejam de tanto frio, estou gélido, frozen, a ponto de cair no Cocytos (bem que eu queria). Só me vem sentimentos de paz e de conformidade, quero migrar para outra dimensão (Saga, com teu poder, desloque-me!), quero estar junto dos deuses inferiores, dos três Kyotos – receber a Máxima Precaução, a Marionete Cósmica e o Vôo de Garuda, só assim, eu penso, eu descansaria. Porque nem mesmo andar direito eu posso, minhas articulações são como que finas cartilagens, desgastadas, delgadas por tanto irradiamento de sohma negro. Ah, meus tempos de menino buchudo, quando eu fazia artes e mais artes pelos tabuleiros e não sofria nada, no máximo uma gripinha. Agora, uma faxina na minha library ocasionou-me toda essa situação patológica: catarro aprisionado em meu corpo, dor de cabeça, dor de ouvido (estou quase surdo), dor nas articulações, sinais de uma gripe que vem por aí e que teimo em combater, por mais fragilizado que eu esteja. Minha cabeça não agüenta mais, estou podre, quero deitar, só assim me vem a paz. Esperar que a natureza se compadeça de mim. Pelo menos escrevi, estava em débito. Anseio por encontrar meu ente querido, na distante Paraíba. Sowacka, que Vishnu tenha piedade de mim!

 

MFE in 14 maio 2008

 

 



Postado por: Helder Macedo às 15h08
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FERIADO, PAZ E QUERER

 

Coração disperso, distante, ronda pelas pedras, procura abrigo

Dilacerado por tantos episódios insalubres, deseja viver

Encontrar um pouso seguro, dormir

Sentir um corpo perto, degustar de seu gosto

Sentir seu cheiro, sua aura

Dormir, descansar

 

Meu coração está disperso, distante, ronda pelas pedras,

Anda pelo fogo, passeia por mares distantes,

Não sabe bem o que quer, encontra-se em stand-by

Está calejado, não quer se indispor consigo mesmo

Mas o desejo fala mais alto, ele anseia pela comunhão

Não importa a distância, nem que o outro esteja tão longe

A ponto de não sonharem nem mesmo de se ver de perto

A um instante que seja, que seja fácil, que seja simples

 

Pedra, meu coração já foi assim,

Já fui gelo, frozen, inferno glacial,

Queria mais gostar de ninguém não,

Sentir aquele fogo subindo dos pés à cabeça,

Uma falta de ar súbita, gostosa

Daquelas que, quando acontecem,

Mexem com o ego, dão vontade de comer chocolate

E de ficar deitado numa rede, despreocupado,

Somente escutando músicas de amor

 

Hoje, não quero mais ser esse gelo eterno

De onde o Cisne desentranhou a armadura sagrada

Por séculos banhada pelo rigor da Sibéria

Hoje eu quero estar bem comigo mesmo

E quero estar a pensar naquele por quem me afeiçoei

Naquele que me transmite paz quando fala comigo

Naquele que me entende como sou

Porque parece que não tenho mais saco para pular tanto

De galho em galho, na espreita, querendo dar o bote

Quero estar com meu coração amarradinho

Quero uma sombra onde pousar ao meio dia,

Um vento para me refrescar quando estiver com calor,

E poesia para me fazer esquecer essa realidade insuportável

 

Quero encontrar com a paz, estar debaixo dessa sombra

Desfrutar do prazer dessa conversa prazeirosa,

Dessa presença estranha, que avassaladoramente entrou

Em minha vida, deixando profundas marcas,

Quero o vento cálido que essa paixão me traz

Poder dormir enroscasdo com ela, sem pensar no dia de amanhã

Planejar futuro, quem sabe?

Gozar ao som de melodias quentes e com gosto de maçã

Ou com o gosto-de-quero-mais que há tempos eu não sentia...

Quero me entregar, quero continuar me arrepiando

Quando penso que meu coração está distante

Com pedra, com fogo...

 

 

MFE in 1° maio 2008

 



Postado por: Helder Macedo às 19h13
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AFRODITE

Hoje sinto uma grande dor dentro de mim. Não sei se por conta de uma terrível gastrite nervosa que se abate sobre meu corpo, acho que sim. Penso que não, talvez seja por eu estar um pouco vazio, um pouco como que tivessem arrancado parte do meu ego. Acho que ainda não sei lidar muito bem com isso, sou uma criança nessas artes e nesse mister, porque ainda acredito que há vida após desilusões. E, de besta que sou, ainda creio que posso ultrapassar tais fronteiras sem sair combalido. Pobre de mim... Hoje, em verdade, na caminhada para o trabalho sob a canícula que pouco a pouco se instalava no céu, pude ver quantos espigões assomam-se nessa selva de pedra onde vim me meter, de metido. Espigões tantos que me mostraram a pequenez que detenho frente às altitudes que se mostram para todas as bandas – pequenez diante da probabilidade de encontrar alguém com quem eu possa, assim como Orfeu e Eurídice, gozar uns poucos momentos juntos, ao som da lira, das sagradas flores dos Elísios e da brisa apaixonante do submundo de Hades. Na verdade, bom seria mesmo um réquiem de cordas, um acorde noturno, uma melodia sibilante tocada ao pé do ouvido do outro, fazendo emanar sensações semelhantes àquelas que irrompem quando a orelha é tocada pela ponta sedenta e molhada de uma língua em chamas, ardente, candente (esse réquiem me tiraria do sério). Notas, acordes, deleites, sobejos, acho que pouco seria um tudo para eu, que, nesse momento, encontro-me meio que destroçado pelas rosas piranhas, enegrecidas, selvagens, de Afrodite, que, senão me atravessaram por inteiro, deixaram indeléveis marcas puntiformes em todo meu corpo, marcando-me com a mais bela das agonias, a de sentir-se vencido, incapaz, morto aos olhos do mundo circundante. Oras, que coisa! Será mesmo que posso fazer todas essas viagens transdimensionais, ou terei a capacidade de ser um jumper, acho que eu ainda não sei muito sobre mim, por isso fico divagando e caindo de teia em teia, migrando de frame para frame, sem saber o que quero, entusiasmado com a vontade de gostar e ao mesmo tempo chateado com tantos carretéis que acabam se formando. Santa Maria dos Amostres! Parece que foi ontem que, pela primeira vez, estava a executar um ballet sincronizado envolvendo espadas que mutuamente brigavam, guerreavam para ver qual delas seria quebrada, e qual a que rasgaria a carne alheia... parece que foi ontem que, pela primeira vez, estava a deixar que todo o meu corpo fosse rasgado por aquela espada tirana, enorme, avassaladora, que me deixou em frangalhos, me fazendo correr o Bagé... parece que foi ontem que, pela primeira vez, ensaiei um ósculo apaixonante e apaixonado que nunca foi dado numa das minhas paixões de plantão, no tempo em que eu acreditava que ainda podia amar alguém de igual para igual, sem ter o crédito de que, como diz Shakeaspeare, de que as pessoas não têm obrigação de nos amar da forma como queremos... parece que foi ontem que, pela primeira vez, pude efetivamente beijar outro da minha espécie, sentir sua língua deslindar todos os meus caminhos mais obscuros e alveolares, obrigando-me a transmitir, pela saliva microbiana, sentimentos recolhidos e atenuados pela discórdia que reinava. Tempos de brilhantina, parece que foi ontem que acreditei que o amor era possível, pois, hoje, parece que está entronizado num altar, e não vejo mais possibilidade, como o santo negro do clipe de Like a Prayer, descer do pedestal e transformar-se em realidade. Imagino que existem coisas melhores talvez, como o amor àquela que me fez vir a esta realidade, Gaia, a Mãe-Terra, com suas pedras, paus, flores, plantas e riachos, acho que ela tem mais a me oferecer, presumo. A não ser que me provem o contrário (ainda tenho tempo para isso, não entrei na casa dos 30), quero mesmo é repousar debaixo de uma quixabeira bem florida, comer imbu com sal tirado do pé e dançar escutando o som da siriema em cima do Cabeço do Capim.

MFE in 24 abr 2008


Postado por: Helder Macedo às 10h56
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CRÔNICA DE MORTE

Por que essa sensação estranha em mim, de que o passado retornará? Tenho tido tantas experiências frustradas com relação ao gostar, que não me vejo com as condições que pressupunha ter para envidar esforços no sentido de querer alguém. Por incrível que pareça, ontem, não chorei o quanto deveria, para expelir meus esporos de negatividade acumulada... me fiz de seco, de gelo, de pedra, como costumo dizer que sou. Hoje, pela manhã, entretanto, a chuva veio comento tudo e todos com seu poder infindável... e tantas pontas de água em forma de gotas que me vi a pensar nisso: será que serei um dos que militará, na Terra, em busca de amores não correspondidos, até que nada mais haja, nem mesmo o ser humano, e eu seja o último dessa espécie, a vagar pelas brumas do mundo perdido. Essa chuva que cai me deixa melancólico, triste, perdido. Acho que não serei mais o mesmo depois de tanta decepção, afinal de contas, as pessoas costumam, no dizer de uma grande amiga, futilizar nossos sentimentos, ter medo de se entregar, mesmo quando a situação parece perdida e um outro comprometimento fala mais alto. Quimera essa história de amor! Acho que não nasci para isso, imagino que tenha um coração tão-de-pedra, regado a filetes de columbita e xelita, que não terei a paciência de esperar por ser amado. Morrerei antes, e serei enterrado em uma cova toda cheia de jasmin, cravo, boa-noite, bom-dia, flor-de-mofumbo, flor-de-pereiro e muito xiquexique, faxeiro, gucóia, coroa-de-frade, cardeiro e palmatória, para impedir de insetos indesejáveis virem profanar meu corpo. Nessa cova, toda cercada de pedra vinda lá dos Fundões, poderei gozar do amor que, sei, é incondicional a mim: o da Terra, o de Gaia, minha mãe eterna, a que me fez vir ao mundo, que me fez caminhar por entre prados verdejantes e por plagas áridas, a que me fez, também, sobejar por dentre caminhos malfadados e sofrer por outrem... a que me fez ter coração grande demais, a fim de querer abarcar o mundo todo, amar todos, sem condição. Antes de morrer, todavia, gostaria de rever todos, nem que fosse por um único instante, para que pudesse reverberar, em meu corpo sacrossanto, os estigmas de todos os amores pelos quais já padeci: Nos-joel, meu grande amor de infância, por quem ainda nutro filetes de paixão; Atlas, com sua performance altaneira, lembrando as velas que fizeste e o amor da minha adolescência; Ícone, lembrando a distância e a cadência de uma longa viagem; Ok, com sua indecisão e seus olhares obscuros; Gallo1, com o qual remixei vários CDs; ........; Soldadinho de chumbo, por quem pensei que fosse acabar gostando muito (será que gostei?); (...), por quem acabei me enroscando, gostando, mas, feriu meus brios; Anjo, ainda em processo. Todos eles receberiam meu beijo, meu selo, minha dádiva. Só assim morreria feliz, enterrado por entre as rosas, e cheio de terra vinda do Cardão, do Bráz, dos Fundões... Acho que todos os dias cantaria e renderia graças ao amor, como que aquilo inatingível, que nunca consegui alcançar plenamente. E estaria a abençoar os transeuntes de plantão.

MFE in 23 abr 2008



Postado por: Helder Macedo às 08h47
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INCERTEZA

Meu corpo treme em polvorosa
Ânimo não tenho, pareço querer cair
Escuto vozes estranhas, estou louco?
O mundo ainda guarda anseios do tempo do mito
E eu, querendo declinar diante dele
Será que poderei, terei forças?
Derreto-me em prantos tortuosos
Espero que a ordem venha me dominar
Dar cor a meu corpo queimado
Iluminar minha mente vazia
E preencher meu corpo, tão vazio, tão carente
Cioso de vida e de viver,
De querer gostar
Vida que me queima a aridez pouca que me resta
E que gosto de cultivar
Será possível que inda terei chance,
Em frangalhos após tantas guerras,
De amar?

MFE in 22 abr. 2008


Postado por: Helder Macedo às 11h49
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CARA DE CAOS, CORPO DE ORDEM

o caos habita em mim
não encontro motivo para não ver em cinza e tons pastéis a vida
no momento em que despeço-me de todas as possibilidades de existir
de poder vibrar ao som do calor humano, de manter o corpo junto ao corpo, de deitar
ou mesmo de pensar que existe um futuro a dois

uma raposa de nove caudas reverbera dentro de mim
quer sair, violenta e furiosa com tudo e com todos
esperando poder recriar o mundo tendo como espelho
sua própria vontade de viver, de criar laços, de criar/quebrar círculos

existe vida após a morte, será?
ou chances, após a quebra de laços,
da paixão, amor e ódio ainda sobreviverem,
à custa de escolhas que se tornam decisivas, lascivas, laboriosas?

espero e ansio calorosamente pela ressurgência da ordem
ou será que o caos me dominará infinitamente
qual será a causa de tantas querelas, tantos dilemas,
será possível que eu, um dia, não terei o direito de gostar?

será tão difícil, assim, gostar de outrem?
logo agora, dubiedade tamanha espreita meu ser
deixando-me em frangalhos, na dúvida,
sem saber a quem recorrer...

escuto a música e me canso de fechar os olhos
quero gozar ao som desse lírico fantástico
imaginando que, como a cantora canadense, encontrarei uma cause
para isto que está acontecendo

e, ao fechar os olhos,
poderei então descobrir dentro de mim
que a chama do desejo ainda existe
e que sou mortal, também.

MFE in 22 abr. 2008



Postado por: Helder Macedo às 11h14
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